António Nunes

IXP - INTERNET EXCHANGE POINT

INTERNET EXCHANGE POINT (IXP) DO QUE SE TRATA E PARA QUE SERVE?

Se concordarmos todos que vivemos no século da informação, em que os dados são um dos recursos mais estratégicos da sociedade, é legítimo considerarmos que os Internet Exchange Points (IXP) constituem um dos alicerces fundamentais para que estes possam fluir adequadamente nas redes digitais. Por um lado, eles mantêm o fluxo digital dentro das fronteiras nacionais, por outro, melhoram a precepção da qualidade do serviço, reduzem o tempo das comunicações e contribuem para a soberania digital.

Eng. António Nunes

1

1. INTRODUÇÃO

O QUE É UM IXP?

Um IXP é a infraestrutura da rede digital que tem a função de interligar diferentes redes de dados. É por isso chamado ponto de troca de tráfego de internet ou Internet Exchange Point. Este conjunto de router e servidores, faz as ligações entre os provedores de conteúdo e os usuários. Os usuários são aqui representados pelos operadores e ISPs (provedores de serviço de internet), pois estes detêm as redes de acesso.

Os provedores de conteúdos estabelecem ligações directas com os IXPs ou alocam representantes para o fazer. Muitas vezes estes representantes são os próprios operadores, que detêm a concessão de um determinado conteúdo para uma determinada região. Algo parecido com os direitos televisivos de um canal ou programa para um país ou região.

Um IXP é por isso um ponto de rede crucial, para a criação de uma Internet de qualidade.

Do ponto de vista da sua operação comercial, os IXPs tipicamente pertencem às seguintes estruturas:

· Associação de operadores;

· Órgão governamental;

· Entidade privada;

COMO SURGE O IXP?

Em termos históricos, o primeiro IXP a ser criado foi o de Amsterdão em 1994, sendo uma associação de provedores e operadores. O maior IXP do mundo é hoje o de São Paulo com 2400 redes conectadas e com um pico de tráfego de cerca de 22 Tbps. No 3 maiores IXPs do mundo junta-se ainda a DE-CIX em Frankfurt e a AMS-IX em Amsterdão. Em Angola existem dois IXPs. O ANGONIX o maior de Angola com cerca de 60 Gbps de pico de tráfego, criado em 2015 e o Angola IXP com um pico de tráfego cerca de 11Gbps, criado em 2006.

A pergunta que não se quer calar é, “qual o modelo operacional mais eficiente de infraestrutura, para um país”.

2. ANGONIX: O Segundo IXP de Angola e o impacto em África

O conhecimento que adquiri na criação do ANGONIX, permitiu-me entender a estratégia por detrás desta infraestrutura, a sua importância e o benefício que agrega para o seu detentor. Esta circunstância é tanto válida para um operador como para um território ou país.

No caso do ANGONIX, que atingiu no seu primeiro ano de actividade o ranking de 3º posição em África, foi o facto do seu proprietário ter definido como estratégico o desenvolvimento do mercado nacional de Internet. Este factor crio-lhe incentivos para desenvolver uma infraestrutura de qualidade e baseada nos standards internacionais de qualidade. Hoje e a nível africano o ANGONIX tem picos de transito de cerca de 50-60 Gbps e NAPAfrica tem picos de transito IP de 4-5 Tbps.

Um IXP é o ponto central de uma rede, pelo facto de ser um farol digital dentro da Internet, pelo seu ASN. Autonomous System Number (ASN) é o identificador único atribuído a uma rede autónoma na Internet. Ou seja, o número (nome) pela qual uma rede é conhecida na Internet. Esta infraestrutura passa a ser o centro do ecossistema. Se fizermos uma analogia com um sistema de distribuição logístico de consumo, o IXP é o interposto comercial. Recebe dos produtores e fornecedores (os conteúdos), através dos sistemas transportadores existentes (redes de transmissão em fibra, cabos submarinos e outros meios), pertencentes aos operadores. Posteriormente identifica os compradores e estabelece a ligação entre os mesmos.

AS ROTAS DE TRÁFEGO MUNDIAL DE INTERNET

As rotas de tráfego mundial da internet são fundamentalmente configuradas para funcionar de forma autónoma, através de um protocolo de escolha dos caminhos mais eficientes, que um conteúdo percorre entre o Usuário e o Provedor. Este protocolo chama-se BGP. Desta feita a rede que tenha o melhor BGP é a rede mais utilizada pelos usuários.

No caso específico de Angola, o proprietário do ANGONIX é a entidade que se tornou num verdadeiro farol digital internacional. No ecossistema da internet mundial este operador foi catapultado directamente para a vanguarda das operações mundiais. Os maiores utilizadores da rede internacional de Angola são o Brasil, a própria Angola, Portugal, EUA, África do Sul, Espanha e a Nigéria. O AS da operadora troca hoje tráfego com mais de 3900 redes no mundo inteiro. Está hoje posicionada no ranking 21º- 24º no mundo e é o único operador africano no Top 50 mundial.

Conectar redes é também conectar pessoas, instituições, negócios e países. Percebi então, que poderíamos ser parte activa na construção de uma Internet africana, desde que se desenvolvessem mais interligações com os provedores de conteúdos destas nações. A maioria do tráfego consumido dentro dos países africanos tem origem na Europa e nos Estados Unidos e muito do tráfego digital africano é ainda hoje trocado nessas paragens. Outro dos grandes problemas regionais é a destruição dos conteúdos africanos. Grande parte dos canais de televisão africanos estão falidos e descontinuados. Muitos deles não fizeram a transição digital e têm os seus conteúdos em fitas ou cassetes. Não estão ligados aos sistemas de distribuição digital e muitos nem detêm um ASN para estarem ligados a Internet. As grandes cadeias de media internacionais estão a dominar os mercados africanos e simplesmente absorvem os recursos humanos competentes dos mercados locais. Existe por isso um grande problema na estrutura do ecossistema digital africano, pois sem conteúdo não há mercado local.

O IMPACTO DO IXP NO MERCADO GLOBAL

Ao criar-se uma infraestrutura sólida e capaz de responder às demandas, passa-se a ser um activo apetecível e de relevância para o mercado. Podemos constactar que o ANGONIX mesmo tendo surgido no mercado 11 anos após o seu concorrente no mercado angolano, rapidamente assumiu a liderança do mercado, pois tinha os ingredientes necessários para o ecossistema funcionar.

Ao olhar-se além da técnica e do mercado, perceber-se-á que a gestão adequada desta infraestrutura não é apenas rede e negócio, é sobretudo soberania. Soberania digital em ação, pois detém-se a capacidade de definir a quem se obtém o conteúdo disponível no mundo e igualmente garantir que os nossos conteúdos são entregues a quem os solicita.

O êxito deste projecto teve como pressuposto que o ANGONIX e o seu operador fossem comercialmente activos e que gerassem rentabilidade financeira, fossem neutros, ligar-se-iam com todos os provedores e operadores. Que o IXP estaria instalado num datacenter neutro, onde qualquer um poderia desenvolver o seu próprio negócio, usufruindo do próprio IXP. Ou seja, foi criando um ecossistema que permitiu que o embrião criado em 2015 se tornasse hoje uma infraestrutura relevante a nível nacional.

Olhando para o tráfego processado num IXP podemos verificar a dimensão do mercado onde este está inserido. Na realidade africana o ANGONIX é pequeno devido á dimensão do mercado digital nacional. O número de redes existentes em Angola é de cerca de 50 e na África do Sul são 770, na Nigéria 220. Não somos um grande HUB na região, mas detemos o maior backbone global africano com ligações influentes para a América e a Europa.

3. AVANÇOS E DESAFIOS

O QUE FALTA?

Como anteriormente mencionado é necessário a criação de um ecossistema, para que a solução exista na realidade. Existem duas formas fundamentais de troca de tráfego no IXP. O Peering e o IP- transito. No Peering os intervenientes trocam tráfego. Isto é, a quantidade de tráfego que se entrega a uma determinada rede é similar a que se recebe dessa mesma rede. Já no IP-Transito compra-se tráfego a uma outra rede. Isto é, a capacidade de tráfego é disponibilizada pelo fornecedor a um valor comercial pelo acesso. Estes negócios acontecem fisicamente num datacenter, que são os pontos onde os operadores e provedores de conteúdo se encontram. Normalmente estas entidades também possuem este tipo de infraestruturas.

Por isso, preferem comercializar em locais neutros para ambos, encontrando-se então em datacenters neutros. Nestes locais têm mais escolha de conectividade, de diversidade de caminho, de mais conteúdo variado e por isso estarem num verdadeiro market place. Este antes de tudo é um dos problemas em África. Os mercados africanos na sua generalidade são fechados e não permitem a entrada de entidades externas nas suas fronteiras. Isto cria um constrangimento muito grande na alternativa de acesso ao conteúdo, reduzindo drasticamente a oferta, trazendo como consequência o aumento do custo, que por sua vez reduz o consumo.

Por outro lado, são poucos os países em África, que detêm uma rede internacional de cabos submarinos capazes de fornecer conectividade internacional de alta qualidade como Angola possui. Em muito dos países africanos os operadores dominantes são fracos e pouco produtivos, ou não são nacionais e têm agendas comerciais mais importantes que as agendas estratégicas de soberania nacional. Ficam por isso limitados ao acesso dos HUBs internacionais de tráfego, onde a comercialização de IP-transito é balanceada pela oferta e o Peering é existente.

4. A DIGITALIZAÇÃO E AS OPORTUNIDADES PARA ÁFRICA

OS IXPS E A SUSTENTABILIDADE ECONÓMICA

Quando olharmos para o redor do mundo, constatamos que existem alguns modelos distintos, quanto ao avanço da digitalização. Os que mais avançaram foram aqueles que conseguiram criar modelos colaborativos entre o estado e o privado com maior eficiência.

Hoje é pertinente dizer que cada país deverá ter pelo menos um IXP e que este esteja inserido num ecossistema produtivo e capaz de agregar valor à economia local. Não se deverá permitir que a dependência de acesso às rotas internacionais de conectividade posso ser uma nova forma de colonialismo e desta vez digital.

Na prática, o que pareceu ser um simples ponto de interconexão de redes acaba por tornar-se um motor de inovação local, pois cria uma economia de sustentabilidade ao seu redor.

O QUE TEM SIDO PROPOSTO SOBRE O IXP

Em eventos nacionais e internacionais que participei, destaquei sempre o princípio: “Não há Internet inclusiva sem infraestrutura local.” No entanto, a velocidade de um país em adoptar políticas modernas de peering e construir IXPs locais, determina directamente o ritmo da sua transformação digital.

Também defendo que a governança dos IXPs deve ser neutra, mas comercial. Não devemos beneficiar uma operadora em deterioramento de outra, precisam ser entidades sustentáveis, baseadas em princípios técnicos e de interesse público, mas comerciais. Essa neutralidade é a regra que garante a confiança e a adesão das redes participantes.

Vejo, com entusiasmo, um novo movimento africano em torno das iniciativas regionais, como as da African IXP Association (AFIX), que têm promovido treinamento, padronização técnica e partilha de experiências. É justamente por iniciativas assim, que constatamos a importância local de um IXP. A existência de ecossistemas distintos irá criar a necessidade da interligação dos mesmos e isto irá potenciar a criação de um verdadeiro backbone africano.

A LITERACIA DIGITAL EM ÁFRICA

Contudo a literacia digital em África continua a ser dos maiores desafios. Falta conhecimento técnico profundo sobre roteamento, ASN, BGP e conectividade. Estes são aspectos da maior importância para os governos africanos no que diz respeito aos pontos de soberania digital. Outro grande desafio é o modelo de investimento previsto nos orçamentos em muitos governos. As infraestruturas digitais ainda são vistas como gastos e não investimentos cruciais para o futuro. Cada dólar investido num IXP tem retorno multiplicado, diminuição de custos com interligação, melhoramento da qualidade do serviço, desenvolvimento de ecossistemas digitais, promoção da criação de conteúdo local, inovação e inclusão.

Sei que é tecnicamente possível e politicamente estratégico. A próxima década será decisiva para definirmos se continuaremos dependentes de rotas externas ou se seremos arquitetos da nossa própria Internet. Desafio todos os profissionais, governos e empresários africanos a colaborar neste desafio.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um IXP vai muito além de uma infraestrutura técnica, um instrumento de soberania, desenvolvimento económico e inclusão digital. A experiência do ANGONIX demonstra que África é capaz de construir pontos de interconexão competitivos a nível mundial, desde que existam visão estratégica, neutralidade operacional e ecossistemas abertos.

A questão que se coloca a cada nação africana não é se deve ter um IXP, mas quando e como o construir. Cada dia sem esta infraestrutura local significa tráfego digital a percorrer rotas externas desnecessárias, com custos mais elevados, maior latência e controlo entregue a terceiros.

África enfrenta ainda desafios estruturais significativos. A escassez de literacia técnica em áreas como roteamento, BGP e gestão de ASN, a visão de curto prazo de muitos governos que tratam a infraestrutura digital como despesa e não como investimento, e a tendência para mercados fechados que inibem a entrada de provedores externos, são obstáculos que só serão superados com políticas públicas coerentes, formação especializada e colaboração regional.

Iniciativas como a African IXP Association (AFIX) representam um sinal encorajador de que existe um movimento africano crescente em torno da construção de uma internet local, soberana e de qualidade. A interligação de ecossistemas digitais nacionais é o caminho natural para a criação de um verdadeiro backbone africano e esse caminho começa, precisamente, nos IXPs.

7

Os benefícios para os países que investirem agora

O investimento nesta infraestrutura tem retorno comprovado e multiplicado: redução dos custos de conectividade, melhoria da qualidade de serviço, dinamização da economia digital local, estímulo à criação de conteúdo nacional e promoção da inovação. Não há razão técnica nem económica para adiar esta decisão. O que falta, em muitos casos, é apenas a decisão política de a tomar.

A próxima década será determinante. Os países que investirem agora na construção de ecossistemas digitais locais sólidos estarão em posição de protagonismo na economia digital africana e global. Os que adiarem esta decisão correm o risco de aprofundar uma dependência que, no limite, representa uma nova forma de colonialismo, desta vez digital.

Não há internet inclusiva sem infraestrutura local. E não há soberania digital sem a coragem de a construir.

REFERÊNCIAS E FONTES

  1. AFIX – African IXP Association. (2022). State of the African IXP Ecosystem Report 2022. Nairobi, Quénia: AFIX Secretariat. Disponível em: https://www.af-ix.net/
  2. António Nunes. (2020–2024). Artigos, Apresentações e Estudos sobre Interconectividade e Infraestruturas Digitais em África. Disponível em: https://antonio-nunes.com/portfolio/#
  3. António Nunes. (2021). IXP Implementation and Digital Sovereignty: Lessons from Southern Africa. Luanda: ANG-IXP Technical Report.
  4. António Nunes. (2023). Building Local Connectivity Through IXPs: The African Perspective. Apresentado no Fórum Africano de Interconectividade Digital, Luanda.
  5. Internet Society (ISOC). (2019). Internet Exchange Points: A Technical and Economic Overview. Geneva: ISOC Publications.
  6. Internet Society (ISOC). (2023). Internet Exchange Points Toolkit 2.0 for Developing Regions. Geneva: ISOC Global Infrastructure Initiative..
  7. ITU – International Telecommunication Union. (2022). African Regional IXP Development Report. Geneva: ITU Telecom.
  8. Kende, M., & Hurpy, C. (2019). Promoting Local Content Hosting and IXPs in Africa. London: Analysys Mason / ISOC Report.
  9. African Union (AU). (2020). Digital Transformation Strategy for Africa (2020–2030). Addis Ababa: African Union Commission.
  10. World Bank. (2021). Africa’s Digital Economy: Building Foundations for Inclusive Growth. Washington, D.C.: World Bank Group.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *